Já conduzi centenas de entrevistas de emprego na minha carreira, muitas vezes com pilhas de currículos onde, depois de três parágrafos, você já pensava: "esse aqui pode ser o tal". Primeiro como gerente e diretora de marketing em empresas de software e já faz alguns anos como freelancer. E se aprendi uma coisa nesse tempo, é isto: o melhor currículo nem sempre vence.
Algumas das melhores parcerias que já vivi começaram com alguém que, no papel, não parecia de imediato a escolha mais lógica. E, ao contrário, já conheci muita gente com currículos impressionantes, nomes grandes no perfil do LinkedIn e uma lista impressionante de certificaçõe, como desenvolvedor, por exemplo, em que a colaboração, no fim das contas, decepcionou. Depois de um tempo, você percebe que o conhecimento técnico é apenas uma parte da história.
Conhecimento sozinho não faz a diferença
Quando as organizações buscam um freelancer, a seleção geralmente começa pela experiência. E isso é lógico. Você observa se a pessoa já realizou projetos parecidos. Se conhece o setor e possui o conhecimento adequado.
Essas são perguntas relevantes. Só que percebo que a conversa muitas vezes fica presa nesse ponto. Quando vários candidatos são tecnicamente qualificados, o jogo muda. Passa a ser cada vez menos sobre conhecimento e cada vez mais sobre colaboração. Aí você precisa se perguntar se a pessoa entende como uma organização funciona. Se ela sabe lidar com interesses diferentes e faz as perguntas certas. Se tem coragem de expressar expectativas antes que os problemas surjam. São coisas que praticamente não aparecem em um currículo. E, sendo sincera: é justamente aí que, na prática, as coisas mais dão errado.
Os melhores profissionais costumam fazer as perguntas mais difíceis
O que tenho visto cada vez mais nos últimos anos é que os contratantes ficam entusiasmados com pessoas que apresentam soluções de imediato. Isso é reconfortante. Existe um problema e alguém parece saber exatamente como resolvê-lo. Ainda assim, com o passar dos anos, passei a prestar mais atenção justamente nas pessoas que primeiro fazem perguntas.
Os freelancers com quem mais gosto de trabalhar não pulam direto para a solução, eles tentam primeiro entender o contexto. Perguntam por que algo está acontecendo e, talvez ainda mais importante: o que já foi tentado? Isso torna os conselhos deles mais bem pensados e, geralmente, melhores. E a colaboração também costuma ser melhor.
Navegando pela política organizacional
Quando um projeto sai dos trilhos, geralmente se olha primeiro para o conteúdo técnico. A estratégia estava certa? A expertise era suficiente? Ainda assim, na maioria das vezes vejo a causa em outro lugar. Por expectativas pouco claras, por exemplo, e interesses conflitantes dentro da organização. Por novos stakeholders que entraram no meio do projeto e uma tomada de decisão que demorou mais do que o previsto. Ou simplesmente porque o contratante esperava algo diferente do que havia sido combinado. Nenhum desses são problemas de conhecimento, são problemas de colaboração, e nem o currículo mais impressionante dá conta disso.
O que foi dito acima vale ainda mais para freelancers do que para funcionários fixos. Um freelancer entra em uma organização que já está em pleno funcionamento. Existem processos, interesses, sensibilidades e, às vezes, também relações políticas já estabelecidas. Especialmente em organizações maiores, não basta ser bom no seu ofício. Você também precisa perceber como as decisões são tomadas, quem tem influência, onde está a resistência, que informação está faltando e quando é preciso insistir com perguntas.
Isso exige habilidades de comunicação, empatia e experiência. Características que não são fáceis de resumir em uma lista de competências.
A conversa mais importante costuma acontecer antes
Olhando para trás, para os projetos que realmente deram certo, percebo que o sucesso já era visível antes mesmo do trabalho começar. Havia conversas abertas sobre expectativas. Falava-se sobre responsabilidades. As pessoas tinham coragem de dizer do que precisavam para ter sucesso, e havia espaço para fazer perguntas críticas. Ainda assim, são justamente essas conversas que acontecem com pouca frequência.
As organizações às vezes buscam, por exemplo na procura por um desenvolvedor web, a combinação perfeita de experiência, certificações e conhecimento de mercado. Como se o sucesso se tornasse totalmente previsível bastando o currículo ser impressionante o suficiente. Minha experiência é diferente.
Claro que a pessoa precisa dominar seu ofício. Mas, uma vez que essa base existe, outros fatores se tornam mais importantes: curiosidade, comunicação, confiabilidade, a capacidade de administrar expectativas. E talvez o mais importante: a disposição para realmente colaborar. Porque, no fim das contas, você não trabalha com um currículo. Você trabalha com uma pessoa.
O que vemos na Freelancer.br?
Também na Freelancer.br observamos que os contratantes olham cada vez mais além da experiência ou das certificações. Nossos dados de marketplace mostram que os projetos são descritos de forma cada vez mais especializada, e que os contratantes buscam cada vez mais por expertise específica, conhecimento de setor ou experiência com determinada ferramenta. Ao mesmo tempo, vemos que as colaborações bem-sucedidas não surgem exclusivamente porque alguém tem mais experiência. Justamente a comunicação clara, o fato de fazer as perguntas certas e a compreensão do contexto de um projeto costumam ser, no mínimo, tão importantes para um bom encaixe.
Para os contratantes, isso significa que vale a pena não olhar apenas para o currículo, mas também prestar atenção em como a pessoa pensa, se comunica e colabora.